O MÓVEL, O AMBIENTE E O DECORADOR É comum tratar-se de móveis sem os seus volumes rítmicos e suaves, pensar em ambiente e impossível continuará os ritmos daquela. Contratar-se deste, esquecendo a casa tudo, para que a casa não se tor-ou tratando-se da mesma, esquecen- ne estranha ao meio em que se vido do atual mundo brasileiro, com ve não se deve portanto, esquecer seus costumes, clima e paisagem. a relação que ela deverá ter com a É também comum, ouvir-se entre vida contemporânea. Os caracte-pessoas leigas à ARTE DECORATI- res que distinguem o móvel de hoje VA, expressões como esta: "Serei como o de ontem são, a sua estru-o decorador de minha residência". tura estética integrada no espírito Como, se decorar uma casa fosse o arquitetônico e funcional do ambien-dispôr de seus móveis, cortinas, ta- te, isto ainda não obedecendo o sen-petes e adornos em lugares visível- tido restrito do vocábulo, por-mente acómodos. Como se isto fôs- que devido a preciosidade decorati-se meramente formal. É preciso que va do móvel, este deve impôr-se se saiba que numa decoração de re- pela natureza funcional com o úni-sidência para que se consiga o tom co objetivo de ser elemento expres-funcional da mesma, é não desço- sivo dentro da convivência cotidia-nhecer a correlação que existe en- na, dando a impressão de vitalidâ-tre pisos, paredes, forros, portas, de, intimidade e bem estar. Pois escadas, iluminação, móveis, corti- de um modo contrário, ter-se-ia em nas, tapetes e adornos. Pois de um vez de conforto moderno e artísti-modo contrário, ter-se-á uma resi- co, uma ambiente austero asseme-dência, cujos utensílios, lhe serão lhando-se com uma pessoa vestida estranhos, bem, como aos seus ocu- a rigor que obriga as outras que a pantes. Fazendo por conseguinte, cercam, a ficar de pé; ser como as que, as 24 horas diárias passadas flores e as plantas de um jardim, dentro de suas salas, recantos e ter- cujas formas e cores as tornam dis-raços sejam de maneira pouco con- tintas, uma da outra, mas ao mes-vidativa e tristonha. Posto que, mo tempo lhes dão, uma harmonia não ser pelo simples fato da esco- que sem a qual, não haveria ritmo lha e emprego de matérias mais ou e beleza, menos acertadas, que se poderá obter a modernidade e vivacidade O equilíbrio rítmico e proporcio- de uma residência, mas sim pelas nal entre os móveis e o ambiente, formas e o ritmo infundidos pelo tornam este com aspeto mais aco- artista que as cria e que faz de sua lhedor, dando a impressão de maior Arte, a função de sua própria exis- amplidão e serenidade. Equilíbrio tência. não se estende somente aos objetos, mas também, às cores, dando-lhes No móvel da casa brasileira de até tonalidades acentuadas em sa- hoje, para se obter uma fisionomia Ias de áreas diminutas. Porque que lhe seja peculiar, deve-se evi- numa sala onde não existe coerên- tar a espécie de preconceitos que cia entre a pintura e decoração, es- lhe possa prejudicar. Assim como ta tem uma apresentação desagra- a habitação tem as suas formas ins- dável à visão, parecendo até ser piradas na vivacidade pura e am- abafada e tediosa. Ainda mais, os pia da natureza regional; esta com móveis colocados desordenadamen- PROF. FELIPE DINUCCI te em uma habitação, cria percursos inúteis, tornando o serviço doméstico mais trabalhoso. No ambiente da casa de hoje, deve-se afastar o acessório e o indeterminado das absurdas reproduções fáceis; também se deve substituir o lirismo cerebral empregado em nossas peças de hoje inspirado em suas formas e cores, pela evolução espiritual e estética do Brasil; inspiradas em suas imensas variedades policrômicas dos diferentes materiais existentes em suas várzeas e montanhas. Estando-se em casa, deve-se sentir, através dos seus ambientes claros e abertos, mimoseados pelas formas e cores dos seus móveis, cortinas e tapetes, uma sensação do bem estar e de pacacidade, como se sentindo entre elementos joviais e amigos, leves e frescos como nas alamedas de um jardim medieval numa manhã primaveril, pois só assim, é que se pode respirar um ar tranqüilo após as labutas cotidianas . A casa brasileira, deveria apresentar hoje em dia, de conformidade com o caráter hospitaleiro e aco-lhedor de sua gente; ter àquela simplicidade meiga e gentil, àquela graça e distinção, ao mesmo tempo sóbrias e polidas, que especificam e distinguem o seu povo. ACROPOLE QQQ FEVEREIRO — 1949 ^JÍÍO