PROBLEMAS DE ^llúlr" Prof. da Faculdade de Arquitetura e TJ "D D W "M1 T Q TV/T Q Urbanismo da Universidade de São Paulo. I A URBANÍSTICA E O HOMEM MODERNO Surgiram, assim, por todo o mundo, quarteirões e con- Desde que o Urbanismo e a grande Indústria surgiram juntos residenciais, todos de tipo popular, em parte cons- no século XIX a caráter formativo da civilização, verificou- traídos por iniciativa de entidades assiscenciais ou por so- se sempre uma contínua e bem distinta diferenciação das ciedades particulares, em pane formaram-se espontânea- várias evoluções tipológicas de uma cidade em conformidade mente, sem previsões de pianos e projetos, ampliados e com as características de seus próprios habitantes. Isto é, circundados em seguida por um caos de construções meno- surgiram problemas relativos aos zoneamentos urbanos de res, quais casebres e favelas, verdadeiros lazaretos da po- modo a se dividir as cidades, de acordo com as categorias breza e da miséria humanas. constitutivas de determinadas coletividades, em setores de Os habitantes destes quarteirões tiveram que viver, por habitação e de trabalho com suas próprias e definidas fun- conseguinte, avulsos do centro verdadeiro da comunidade ções de, vida e de movimento. urbana da qual faziam parte numérica, e dela, aos poucos, Tivemos, assim, entre os vários fenômenos de ordem estranhar-se quase hostilmente, pois, com meios de trans- urbanística, os bairros caracterizados através de seus vários portes coletivos às veze3 exíguos, mal podiam materialmente elementos formativos dependentes, por exemplo, de sua lo- aconchegar-se ao ponto central representativo da própria calização topográfica, de sua sistematização comercial ou cidade. industrial, de sua função residencial ou paisagística, de sua Daí, o isolamento de vastas camadas das nossas massas razão higiênica ou viária. populares, com conseqüente queda de seu teor ae vida e Classificações, estas, que, antes do surto industrial do de sua educação civil, século XIX, não teriam encontrado nenhuma razão de Tornou-se necessário encaminhar a urbanística com existir, pois, á partir das organizações sociais das antigas diretrizes humanas de cooperação social, correspondentes a "insulae" romanas e passando pela edade-média, pela Re- critérios de completa e harmônica colaboração espiritual e nascença, pelo século XVIII, etc, a distribuição das popu- material entre as várias classes de citadinos. A questão, por lações urbanas não era ainda por "zonas horizontais", como tanto, não ficou para precisar se, a urbanística temia ou não tencionamos fazer hoje, mas sim por "camadas sobrepostas" uma função social, mas sim para determinar qual é esta na base de, certo espírito de casta, jerárquico, feudal ou pa- função e em nome de quais princípios esta função existe, triarcal vigente naqueles longínquos tempos. Princípios já conhecidos por todos os que se interessam de Um convívio romano, um castelo medieval, um palácio urbanística e que, naturalmente refletem o grandioso moda Renascença ou da época barroca, protótipos das aglome- vimento social de nosso século, no qual foi, pela primeira rações urbanas modernas, eram edifícios onde viviam dis- vez, aplicada a igualdade humana e política das classes tribuidas pelos seus vários pavimentos as mais variadas sociais. categorias de cidadãos e subditos, á partir do senhor todo é o que vemos em alguns países europeus, como Suécia, potente com seus descendentes e vassalos, até ás humildes Dinamarca, Suissa, Noruega, em que as idéias e, as insti- famílias de seus soldados, artezãos, criados e escravos. tuições existem em função de uma conciência de coopera- A urbanística da segunda metade do século XIX san- ção legalizada e que poderiam ser juridicamente reconhe,- cionou em normas o "zoneamento" que já se tinha iniciado cidas e generalizadas em todas as Constituições dos vários espontaneamente nos tempos passados com o processo da países do mundo e, principalmente, do continente, america- diferenciação das classes sociais. Deste modo, o fenômeno, no. Admitir estes princípios é, sem dúvida, dar um grande mal interpretando os reconhecidos "direitos do homem" passo em prol da justiça social, dentro dos quais a Arquite- tanto conclamados depois da Revolução Francesa, teve uma tura e a Urbanística também contribuíram para a solução errônea consistência que, apesar da evidência premonitora de um preocupante problema de bem e,star civil. A Urba- de seus primeiros resultados e efeitos contraproducentes, nística, especialmente, tornar-se-ia então um fator de edu- alicerçou-se sobre leis absolutamente absurdas em fato de cação social intermediário e de coligação entre as novas servidão, de utilidade pública, de insolação, de transportes, correntes espirituais e as necessidades materiais de vida higiene, etc. das aglomerações humanas. Construiram-se, assim, os altíssimos arranha-céus de Sendo que certas determinadas condições de ambientes Nova Iorque, (prevalência do espírito comercial-especula- e de meios de vida de algumas categorias de homens põem tivo), traçaram-se as coreográficas avenidas de Viena, Ber- cada um deles dentro de um constrangimento da própria lim, Paris (prevalência do espírito político), formaram-se dignidade representado pela existência de favelas, cortiços, em zonas previamente escolhidas os bairros eminentemente transportes superlotados, fábricas anti-higiênicas, teatros elegantes, em quanto, nas zonas menos atraentes, aparece,- angustos, hospitais antigos ou irracionais, etc, não pode-se ram os bairros populares onde -as casas tornaram-se símbolo pretender que todos, especialmente os indivíduos mais hu- de monstruosos formigueiros humanos. mildes ou analfabetos, consigam encontrar em si mesmos A força centrífuga de expansão das cidades continuou recursos para manter um próprio prestígio, quando, obri- a predominar, afastando sempre mais os bairros populares gatòriamente, devem viver em situações e locais não con- dos centros urbanos, que por sua vez, localizados nos pontos soantes ás mais elementares necessidades de vida. nevrálgicos e baricêntricos da atividade citadina, transfor É necessário, para tanto, conseguir e dar um auxílio mavam-se em núcleos de absoluto e esclusivo movimento a esses homens. Auxílios que só podem chegar por fora comercial. ^ do cidadão, através de escolas, hospitais, ambulatórios, ma- Não foi mais possível conter a onda de ocupação do ternidades, jardins e parques públicos, transportes coletivos, espaço urbano, e, pensou-se, então, para coordená-la, enca- teatros populares, casas á prestações, etc, isto é, através dos rar o problema pelo menos sob o ponto de vista higiênico, vários planos governamentais de assistência e dos novos criando os centros satélites para o povo, localizados à deter- princípios funcionais da moderna arquitetura, e, pelo que minadas distâncias do antigo núcleo principal da cidade, concerne a urbanística, através de, uma função organizativa auto-suficientes, de rhodo a se poderem realizar construções e educacional que vise dar ás populações urbanas uma lo- térreas com distribuição extensiva, intercaladas possível- calização distribuitiva e uma ambientação equitativa mais mente à superfícies verdes. naturais e mais dignas á vida do homem. 349