ASPECTOS BÁSICOS ATUAIS DO PLANEJAMENTO URBANO Síntese da palestra realizada pelo Urbanista Carlos Lodi — Eng.° Arq.° — Chefe do Planejamento Geral de São Paulo, na Associação dos Engenheiros de Santos Temos tido ultimamente em São Paulo, e agora mais possível, e inúmeras vozes já se fizeram sentir também em Santos, um crescente interesse público dentro e fora da Prefeitura neste sentido, continuar pelos problemas do planejamento urbano, interesse no desenvolvimento de um urbanismo esotérico por esse não demagógico e verbal apenas, mas ligado à um lado, pois está fundado no conhecimento das idéias conciência de querer melhor conhecer, estudar e exa- gerais dos administradores e técnicos do passado de minar, em conjunto, as questões teóricas sobre as que é depositário um restrito número de profissionais, quais está fundada a prática do urbanismo, prática e improvizado por outro lado, pois os melhoramentos essa que é realizada geralmente e cabe mesmo às re- são projetados e realizados por partes e fragmentària- partições para tal fim organizadas pelo poder público. mente sem uma ligação orgânica entre si e em con- Exatamente este lado teórico das questões é o junto, dentro de um critério e de um plano geral que deve ser debatido em público, discutindo os prin- fruto c°mo sao aPenas de prementes necessidades do cípios gerais do planejamento para que, iluminados e momento ou, inúmeras vezes, de determinações pes- amparados por uma mais segura conciência desses soais, quase sempre sem o devido controle da expe- problemas e das soluções a intentar, os responsáveis riencia e da técnica. pela cousa pública orientem mais sadiamente sua Desde então, algum caminho foi andado no sen- ação de comando, evitando especialmente o desperdí- tido do reconhecimento da necessidade de planeja- cio de energias e de meios, o entre choque de resul- mento geral prévio entre nós, e nos dias do urbanismo tados disparatados oriundos de uma séria de limitadas sucessivos, em 1950, 1951 e 1952, tivemos a ventura e desconexas medidas de momento, não enquadradas de poder estabelecer o balanço da situação, quer no em esquemas e soluções de maior envergadura, a que se refere a S. Paulo, graças ao cargo que ocupa- abrangerem todos os aspectos e partes dos assuntos mos na chefia do Planejamento Geral daquela cidade, objetos da ação administrativa, medidas parciais que quer no que se refere, às realizações mundiais, graças acabam por não resolver problema algum e apenas ao estudo e à correspondência constantes que mante- protelam ou deslocam os inconvenientes, constituindo mos sôbre a material aos importantes congressos que na realidade o mal principal de nosso meio adminis- se tem realizado sucessivamente na Europa e na Amé- tvativo e técnico. rica> e aos quais participamos direta ou indiretamente. Houve e ainda há embora em menor escala feliz- Como ja dissemos, é preciso insistir na necessi- mente, a tendência a desprezar ou desconhecer o en- dade de pianejamento prévio, antes de atender aos quadramento geral dos problemas, procurando em problemas particulares. Devemos ir além das meras soluções particulares a satisfação de alguns resultados considerações de melhorias viárias por demais foca- imediatos, em geral aleatórios. lizadas> comQ é excessivamente considerado, ou mes- Tendência a resolver tudo no campo tático, des- mo somente considerado entre todos, o problema da prezando a estratégia, com o resultado de, vencida circulação no planejamento urbano. Neste sentido alguma escaramuça, ficar perdida a batalha. dizia um urbanista inglês, D. Dewar Mills, ainda no A base da ação de conjunto necessária, antes de ano passado: "Muitas cidades modernas têm sofrido ser tomada qualquer providência particular, é por- em maior ou menor gráo pela atitude mental que tanto o conceito de planejamento adotado hoje em considera a circulação rápida e o trafego sobre rodas todos os campos da atividade humana associada e a como o primeiro objetivo do urbanismo". E eu posso que não pode se furtar o urbanismo, cuja função afirmar que a mentalidade reinante do engenheiro peculiar aliás é exatamente esta, a do planejamento que impera no campo do urbanismo exagera este geral, sendo todas as demais derivações que o reali- ponto e transforma o planejamento em pura engenha- zam, como o projeto de vias públicas, de parques e ria rodoviária, quando, como disse, antes, as técnicas jardins, praças de. esporte, de sistemas de transporte especializadas da engenharia e da arquitetura só de- coletivo, etc, ramos de técnicas especializadas da en- vem aparecer depois, quando o problema urbanístico genharia e da arquitetura, constituindo matéria de de planejamento,; já foi resolvido. Mas este mal está urbanismo apenas na parte em que se referem à sua tão arraigado, especialmente entre nós, que geralmen- enquadração nos planos gerais de previsão e estru- te estes conceitos que exprimi são considerados como turação urbana. de pouco caso para com as técnicas especializadas, Em todo o lugar estamos ainda longe da aplicação se?do que cada uma delas isoladamente pretende re- prática desse claro conceito, e continuam as repar- f°lver os Problemas> ^ando na realidade so resolve tições creadas nara fazer urbanismo, e portanto para ° **» Problfm* • Se este nao foi previamente enqua- planejar, a fazer engenharia e arquitetura, e portanto drado em solucoes mais gerais, nada flca resolvido, a projetar. Dizíamos em 1947, em artigo enviado para a Vejamos, por exemplo, como nos expressávamos França: "deve ser enfrentada uma revisão, não da no 1° dia do urbanismo, em 8 de novembro de 1949, técnica dos detalhes do planejamento, hoje adianta- em estudo que apontava para a cidade de São Paulo dissima, mas do próprio conceito geral do planeja- esta necessidade essencial de planejar antes, para mento, que deve ser pensado sob novas bases: o depois projetar. organismo urbano tem um limite ultrapassando o n. ¦ ,~ qual não há solução que satisfaça, entendendo nós jjiziamos então: ^ falar em soiuçao integral, socialmente e moralmente "Se não houve em São Paulo, nunca, plano geral falando também, por mais que se lance mão de expede urbanização, talvez devido à extrema instabilidade dientes artificiais que acabam tornando a vida com- das várias zonas e pelas características peculiares da plicadíssima e o aparelhamento urbano monstruoso, metrópole, em contínua evolução em sua vertiginosa sendo então fatal que a cidade corrompa e destrua o expansão em torno do antigo núcleo urbano, houve homem. É necessário pesquizar este limite e. planejar porém uma tradição técnica, uma orientação geral com coragem no campo regional e nacional, lançando que permitiu guiar até certo ponto o desenvolvimento mão dos mais poderosos meios do planejamento, que urbano, e encaminhar uma série de melhoramentos além dos da engenharia, são os da legislação urbana fundamentais necessários à vida urbana. Mas não é e agrícola e os da política social." 407