É-nos sempre grato falar sobre a evolução da ar- derna, tornando-a cada vez mais viva, original e in- quitetura moderna brasileira. Boa oportunidade esta, dependente. a do transcurso do IV Congresso Brasileiro de Arqui- o primeiro artigo que aqui apresentamos foi escri- tetura, para apresentarmos uma exposição retrospectiva to por Bino Levi, um dos espíritos que tem sentido de sübre esse importante setor da atividade humana. perto e com emoção o vertiginoso progresso do mundo Assim, sentimo-nos quase na obrigação de lembrar aqui contemporâneo. Diplomado pela Escola Superior de dois dos nomes que mais influência tem exercido na Arquitetura de Boma, em 1926, representa Bino Levi, divulgação da nossa arquitetura: Bino Levi e Gregori atualmente, o que o Brasil tem de expressivo em seus Warchavchik. Dando à arquitetura, ainda em seus pri- meios arquitetônicos. Quando cursava o penúltimo ano mórdios, um espírito de renovação de inestimável va- de arquitetura, na Itália, êle escreveu para o "Estado lor artístico, Bino Levi e Gregori Warchavchik inte- de são Paulo" o artigo intitulado "A architectura e a gram-sc hoje como os pioneiros desse desenvolvimento esthetica das cidades". Ei-lo: magnífico, que vem atingindo a nossa construção mo- A ARCHITECTURA MODERNA A ARCHITETURA E A ESTHETICA DAS CIDADES UMA CARTA DE UM ESTUDANTE BRASILEIRO EM ROMA :'É digno de nota o movimento que se manifesta A esthetica das cidades é um novo estudo ne- hoje nas artes e principalmente na architectura. Tudo cessário ao architecto e a este estudo está estricta- faz crer que uma éra nova está para surgir, se já mente connexo o estudo da viação e todos os demais não está encaminhada. problemas urbanos. A architectura, como arte mãe, é a que mais se Uma rua que nasce deve ser estudada no plano resente dos influxos modernos devido aos novos ma- regulador da cidade e deve ser planejada de modo que teriaes á disposição do artista, aos grandes progressos corresponda a todas as necessidades technicas e es- conseguidos nestes últimos annos na technica da cons- theticas sem, ao mesmo tempo, prejudicar as bellezas trução e, sobre tudo ao novo espirito que reina em que eventualmente existam nas suas vizinhanças. contraposição ao neo-classicismo, frio e insipido. Por- Por exemplo, se é possível dar a uma rua, como tanto praticidade e economia, architectura de volu- fundo> um monumento, uma cupola ou simplesmente mes, linhas simples, poucos elementos decorativos, um jardim> porque não fazel-o se a esthetica da rua mas sinceros e bem em destaque, nada de mascarar a ganharia com esta visual e se o monumento, a cupola estructura do edifício para conseguir effeitos que no ou 0 jardim terão a ganhar no seu effeito? mais das vezes são desproporcionados ao fim, e que ,, , '; ';• ... . -, ,.„. . , As ruas parallelas e perpendiculares, como sao constituem sempre, uma coisa falsa e artificial. . , . , . . . ' projectadas quasi sempre hoje nas cidades novas, na Sente-se ainda a influencia do classicismo que, maior parte das vezes resultam monótonas e nem alias, hoje se estuda melhor procurando sentir e m- sempre correspondem ás necessidades praticas. Sobre terpretar o seu espirito evitando-se, a imitação, ja esj-e assumpto não se pôde estabelecer uma theoria; bastante desfrutada, dos seus elementos. discute-se muito principalmente na França e, na Alie-As velhas formas e os velhos systemas já fize- manha mas até hoje a idéa predominante é que é ram sua época. É mister que o artista crie alguma preciso examinar e resolver caso por caso. coisa de novo e que consiga maior fusão entre o que Na AUemanha a estes estudos foi dado 0 nome de, é estructura e o que é decoração; para conseguir isto poiiüca da Cldade; na Franca alguns dog maig valentes o artista deve ser também technico; uma só mente architectos dedicam-s completamente a este novo ra- mvenüva e nao mais o trabalho combinado do artista mQ da arte da ddade; na nova Egcola Superior de, que projecta e do technico que executa. Architectura de Roma ha uma cathedra de "Edelizia" Não ha arte onde não ha o artista, mas o jovem, regida pelo distincto architecto Marcello Piacentini, nos annos em que se forma e adquire uma personali- uma das autoridades mais competentes da Itália so- dade, deve ser posto ao contacto das necessidades mo- bre este assumpto. dernas para que se eduque ao espirito do seu tempo , , , . _ ... , , , , , E um problema este que interessa muito o Brasil e possa constituir uma alma sensível e correspondente , . , n , , , onde as cidades estão em pleno desenvolvimento e ao gosto dos seus contemporâneos. . portanto merece a máxima consideração. Toda obra de arte deve ser ambientada, isto é, deve ser vista sob uma determinada luz, sob uma É Preciso estudar ° *ne se fez e ° ^ue se esta determinada visual e deve estar em harmonia com os fazendo no exterior e resolver os nossos casos sobre objectos que a contornam. Um monumento concebido esthetica da cidade com alma brasileira. Pelo nosso para uma pequena praça e com uma orientação pre- clima- Pela nossa natureza e nossos costumes as nos- fixada perde muito do 'seu effeito se não é collocado sas cidades devem ter um caracter diferente das da no ponto no qual o via o artista com seu pensamento üiurop.a. quando o projectava. Fixada esta idéa é evidente Creio que a nossa florescente vegetação e todas que as construções, que com rnau systema, hoje, se as nossas inigualáveis bellezas naturaes podem e de- projectam sem preocupação alguma da sua orienta- vem suggerir aos nossos artistas alguma coisa de ori- ção e da sua adaptação ao lugar, constituem uma ginal dando ás nossas cidades uma graça de vivaci- offensa a esthetica das cidades. dade, e de cores, única no mundo". 155