Confrontando-se os desenhos da Bahia de Manuel Kantor conl as fotografias do livro "BRASIL — 217 FOTOGRAFIAS" de A. Bon, M. Gautherot e P. Verger, com prefácio de Alceu Amoroso Lima e notas de Antoine Bon, percebe-se de imediato e sem dificuldade, que muitos dos seus desenhos nada mais são do que cópias de fotografias. Kantor nos dá uma Bahia postiça através de um grafismo que seria satisfatório se fosse autêntico. A Bahia de Kantor deixa de ser a Bahia do introdução de José Geraldo Vieira, de uma honestidade e beleza literária admiráveis, na qual se sente o "sortilégio pegajento" desse recôncavo mostrado por um grande conhecedor de sua gente, seus costumes, seus mitos, suas casas, seu passado e seu presente. Como documentação do que dissemos acima (a utilização de fotografias para a realização de desenhos) basta notar que entre aqueles aos quais Kantor dedica seu livro se encontra Pierre Verger, "iniciado no mistério da Bahia, artista e sábio em folclore africano"... O plágio torna-se evidente e comprovado quando descobrimos que os desenhos que consideramos roubados são justamente aqueles confrontados com fotografias da coleção de P. Verger incluida no livro "Brasil— 217 Fotografias", da Livraria AGIR Editora, imprimido por Aulard, Paris (França—1951). Se a utilização das fotos foi feita com o consentimento ou não de seu amigo Verger não podemos dizer. E mesmo não viria justificar nada. Se Kantor — como plagiador — não roubou os direitos autorais fotográficos de seu amigo, utilizando-se de suas fotos de incontestável importância e valor documental, roubou, no entanto, e isto é pior ainda, todos os manuseadores do livro ao qual uma introdução de José Geraldo Vieira deu um significado íe coisa respeitável. Naturalmente o prezado escritor acreditou em Kantor como nós também acreditamos. Hoje, porém, é preciso vir a público para desmascarar o autor desta "BAHIA FEITA EM CASA" como a chamou o amigo Oswald de Andrade Filho. Você sabe muito bem, meu caro José Geraldo Vieira, que os nossos artistas — principalmente os jovens — lutam contra os maiores obstáculos nesta terra para conseguirem alguma coisa. Um Kantor, porém, em 1952 expôs os "seus" temas da Bahia no Museu de Arte Moderna de São Paulo e executou murais sobre o mesmo assunto, no Rio de Janeiro. É o que nos diz a notícia biográfica. Isto acontece enquanto nossos jovens artistas lutam por uma sala onde possam expor os seus trabalhos, pelas observações de um crítico sobre aquilo que expuseram, pela oportunidade de realizarem um mural, sem falarmos aqui disto que nem ousam sonhar: terem os seus desenhos reunidos e publicados em volume. O confronto entre fotos e desenhos pareceu-nos comprovar de maneira absoluta a existência de cópias. Mesmo que supuséssemos — como última tentativa de proteger o artista — que o mesmo se encontrava ao lado do fotógrafo no momento em que fixou seus desenhos seria inconcebível que este momento coincidisse exatamente com o da máquina, esta capaz de fixar um determinado conjunto de elementos fixos e móveis numa fracção de tempo diminuta, aquele necessitando tratar os elementos vistos como modelos num espaço de tempo relativamente grande comparado ao da máquina. Jac-ques Aubert diz o seguinte no prefácio escrito para o livro de Kantor: — "Sentimos imediatamente que o artista amou profundamente os assuntos, e os interpretou de uma maneira muito hábil. Sentimos também que aprendeu a amar os modelos"... Para nós a habilidade de Kantor foi a de um medíocre copiador de fotografias, e não sentimos de modo algum que êle tenha aprendido a amar os modelos. A sua "Negrinha" desenho n.° 3 do volume foi tirado da foto n:° 128 do livro a que nos referimos. Da mesma foto êle tirou a baiana gorda que se vê no seu desenho n.° 22 — "Nosso Senhor do Bonfim". O seu desenho n.° 10 — "Conceição da praia e forte de São Marcelo" é a foto n.° 122, percebe-se isto claramente pelas delimitações laterais e inferior do desenho e pela permanência dos principais elementos móveis nos mesmos pontos da foto. O seu desenho n.° 20 __ "Segunda-feira da Ribeira" é a foto n.° 129 — "Festa do Senhor do Bonfim" invertida, provavelmente com o recurso de papel vegetal. O desenho n.° 131 — "Nosso Senhor dos navegantes" — é uma composição de mau-gôsto feita com as fotos n.° 131 e 132 — "Procissão do Senhor dos navegantes". Com-pare-se ainda o desenho n.° 40 com a foto 125 e o n.° 42 com a 96 e ter-será uma prova cabal da inautenticidade deste artista. Meu caro José Geraldo Vieira, estamos indubitavelmente diante de um escândalo. Não se trata — é evidente — de um desses "escândalos do século" mas trata-se de um caso que merece ser medido, estudado e discutido apesar do mundo de instâncias nacionais muito mais graves e urgentes que nos cercam e exigem a nossa participação. Com a admiração de sempre, ALFREDO PAESANI e BERNARDO CASTELO BRANCO (São Paulo, Novembro de 1955).