ADEQUAÇÃO DO SISTEMA CONSTRUTIVO A CONCEPÇÃO ARQUITETÔNICA Sob este titulo publicamos um comentário em nosso iiltimo número, solicitando-nos fossem enviados esclarecimentos ou críticas, sobre o assunto., devido ao seu sentido atual e polêmico. É com satisfação que transcrevemos a carta que nos foi remetida pela firma Construtora Monteiro, Widgerowitz & Monteiro Ijtda., referindo-se as possíveis falhas em nossa crítica concernente à Cúpula do Ibirapuéra. São Paulo, 17 de maio de 1956 Ao Instituto de Arquitetos do Brasil Departamento de São Paulo Rua Bento Freitas n.° 306 Capital Prezados senhores No último número da revista "Acropole" (n.° 210, Abril de 1956) esse prestigioso Instituto, fez inserir em seu Boletim Mensal (n.° 26) um artigo assinado, com o título "Adequação do Sistema Construtivo à Concepção Arquitetônica", no qual são feitas referências à construção da Cúpula do Palácio de Exposições, do Parque Ibirapuéra, obra essa executada pela nossa firma construtora. Muito louvável, é a idéia de criticar obras públicas do porte e projeção das executadas no Parque Ibirapuéra, no sentido de proporcionar debates em torno de sistemas construtivos e detalhes de acabamento, evitando a repetição de erros. No entanto, não nos parece razoável criticar tão superficialmente e sem um conhecimento mais detalhado do projeto, uma obra da envergadura e da originalidade do Palácio de Exposições. A bem da verdade dos fatos e para completo esclarecimento dos leitores do citado boletim, permitimo-nos de apresentar a VV. SS. as seguintes informações, as quais situam em seus verdadeiros termos as críticas, umas injustas e outras justas, que o articulista expendeu, como ponto de vista próprio, em seu trabalho. 1 — "Intuitivamente sentimos, ao contemplar a estrutura, que o fator peso é irracional, em vista das espessuras de lajes atingidas nos pontos de maior carga" (do artigo). Esse tópico é respondido com os seguintes números: a) A espessura das lajes dos pavimentos internos é de 5 cm; esses pavimentos são feitos com caixões perdidos, e outra laje de forro, também com 5 cm de espessura, dando tudo 60 cm de altura; o que aparece "intuitivamente, ao se contemplar o estrutura" como sendo 60 cm de espessura, não é mais que duas lajes de 5 cm cada uma, com nervuras intercaladas entre ambas. O vazio de 50 cm de altura foi feito para a passagem dos dutos de ar condicionado. b) A cúpula de cobertura é constituída de 2 cascas esféricas de concreto armado, com 9 cm de espessura cada uma (vão de 56 metros), com um vazio de 35 cm entre ambas, para passagem dos dutos de ar condicionado. Nem "intuitivamente" pode-se sentir que a estrutura dessas cascas é pesada, porque, agora depois de feitas, somente abrindo um furo no concreto é que se pode verificar que a sua espessura é realmente de 9 cm. c) Onde mais se pode "contemplar" o peso excessivo da estrutura? Nas fundações que estão agora enterradas? Nos pilares cilíndricos? Nas rampas de acesso aos diversos pavimentos, que em forma de ferradura e com 17 metros de vão livre têm somente 40 cm de espessura? Será que o articulista imaginou a espessura da cúpula pelo que lhe foi dado ver ao alto da porta de entrada, onde uma laje fecha o vazio situado entre as duas cascas da cúpula? Ou nos "oblôs" circulares em que lajes tubulares horizontais, fecham também esse vazio? O articulista não "imaginou" a espessura da cúpula pelas aparências externas, pois conhecia muito bem a forma de construção, desde que esta foi extensamente publicada e difundida em órgãos especializados (Revista Acropole n.° 191). Quanto às fundações, são as próprias fotografias da obra em andamento que nos fizeram deduzir a enormidade das cargas distribuídas ao terreno. 2 ¦—-O articulista atribue as inúmeras trincas a possível recalque do terreno, condenando "o emprego de estrutura monolítica em terreno reconhecidamente fraco" (sic). Um estudo um pouco mais acurado do que foi feito, evitaria tão precipitada afirmativa. O terreno em que foi edificado o Palácio de Exposições apresenta um solo ótimo para fundação direta, sendo que as sondagens previamente efetuadas (confirmadas pela prospec-ção direta, após a abertura das cavas) permitiriam adotar taxa de pressão específica até de 3 kg/cm2. No entanto, como medida de prudência, adotou-se 2 kg/cm2 para a estrutura interna (dos pavimentos) e 0,700 kg/cm2 para as fundações das cúpulas (não sabemos si o articulista notou que a casca se compõe de duas estruturas completamente independentes uma vez que qualquer recalque diferencial poria em risco a própria estabilidade das cascas. Por outro lado, recalques diferenciais determinariam imediatamente o aparecimento de fissuras características ao longo da cinta de bordo (anel), o mesmo acontecendo na superfície interna visível da cúpula, a qual, entretanto, não apresenta qualquer defeito. Sentimos ter sido inteiramente deturpado ou mal interpretado o sentido do texto por nós publicado, pois foram estas nossas palavras textuais: "Inúmeras trincas dão impressão de que a própria estrutura sofre movimentos diferenciais atribuíveis, ou à dilatação, ou ao recalque do terreno". Não afirmamos em ponto algum de nosso comentário termos constatado outras falhas que não as do revestimento externo; repetimos nossas palavras: "completa desagregação do revestimento de pastilhas ocasionada, ao que nos parece, pelos movimentos de dilatação diferencial das várias camadas de impermeabilização". Acrescentamos agora ter sido nossa intenção no mesmo dia daquela visita, examinar o interior do edifício, sendo-nos impossível entrar por ordens superiores, devido as reformas, por que passa a Cúpula no momento. Pe-nitenciamo-nos apenas por termos considerados o terreno fraco para o tipo de fundação estudado. 3 — "Os problemas de conservação desse marco arquitetô- nico exigirão uma constante atenção, desde que não se queira contemplar dentro de alguns anos, uma superfície arruinada e sem utilidade, apezar de ter custado uma fábula" (sic). É essa a mais severa de todas as afirmações. A obra está em perfeito estado, sem qualquer trinca ou fissura, que em estrutura tão delicada, si verificaria si so-breviesse qualquer movimento diferencial não previsto. O