intocado — uma vez que o poder predatório da coi-vara já abrira imensas clareiras — e embora os primeiros ciclos econômicos não tenham concorrido para modificar substancialmente a feição pedológica naquela parte restrita que lhes serviu de assento, com o ciclo do café se iniciou uma atividade destinada a atingir profundamente os solos sucessivamente asse-nhoreados nas diferentes fases de sua expansão. A extrema variedade de tipos de solo (75 segundo o último inventário apresentado pelo pedólogo José Set-zer) foi assoberbada pela cultura deste produto pre-vilegiado, segundo uma forma onde prevaleceram característicos sociais, econômicos e técnicos que causaram incalculáveis prejuizos para a economia regional, impediram o resguardo das porventura excelentes condições pedológicas das várias partes do território em pauta, contrariaram uma política de mais adequado e rendoso aproveitamento das condições eda-fológicas naturais, conflitando, portanto com uma orientação mais racional, que tenderia a diferenciar o uso da terra. O predomínio incontrastável do pio-neirismo, peculiar característica da constituição demográfica regional, exibe exemplos de evidente conflito entre a técnica da cultura do café e condições específicas de alguns solos. Sem recorrer a fatos mais recuados da história do café paulista, vale lembrar o que ocorre no Norte do Paraná, zona que, embora estranha ao âmbito administrativo estadual, lhe, está sujeita como fenômeno social e econômico, e também como prolongamento demográfico. O capeamento da diabase do embasamento é muito reduzido (2 a 3 metros) nesta região, chegando mesmo a medir, em certos pontos, pouco mais de um metro. Como a implantação dos cafezais coincide com a derrubada das matas — característica da franja pioneira paulista — o solo humoso recebe o cafeeiro com uma exuberância inicial muito grande, razão esta mais do que suficiente para determinar aí, um rush equivalente aos que ja haviam empolgado, em épocas anteriores, os abridores de fazendas. Nos primeiros anos de colheita, quando a geada não intervém, realmente as safras representam êxitos retumbantes. Acontece, porém, que ao cabo de uma dezena de. anos, o pião da rubiácea atinge a rocha do embasamento, entrando então em rápido declínio. Certa companhia estrangeira que controla, entre nós, os negócios do algodão, mandou realizar, ao que se sabe, um mapeamento o quanto possível completo, se bem que clandestino na sua parte mais interessante, desta condição pedológica dos solos desta região. Com isso, é evidente, essa compahia fundamenta uma política a longo prazo — tipo da coisa à que não está especialmente afei-çoada nem a nossa economia nem a mentalidade ca-fesista — destinada a substituir o café pela malvácea. Na zona Norte do Estado, por onde penetrou em São Paulo a cultura do café (pelo menos a cultura extensiva), no "mar de morros" que se extende desde os limites do Rio de Janeiro até a serra de Guararema, exceção feita às áreas de campo desde logo recusadas pelo agricultor, a mata cobria de húmus o massapé e, o salmourão, ambos solos provenientes das rochas do Complexo Cristalino, gneiss, granitos e rochas associadas, solos na maior parte das vezes fofos, frescos e profundos quando ainda virgens, e por isso aparentemente adequados à cultura do café. O massapé constituía, pelo seu maior teor de basicidade, a nata destes solos, enquanto o salmourão, mais ácido e, por vezes, mais pobre de fósforo, era também de topografia em geral mais severa; ambos, entretanto, se revelaram profundamente vulneráveis, aquele por ser extremamente lavável e este pela posição topográfica desfavorável, que o sujeita à erosão luminar mais severa. Depois de 50 anos de cultura, decapitados e extratigràficamente deformados pela exposição do horizonte B incapazes de acolher mesmo o enraizamento das plantas de, ciclo curto, estes solos se tornaram o habita preferido da saúva e, do cupim. Se do ponto de vista da artificialização do solo, as condições desta região não foram de molde a determinar uma considerável mudança no comportamento dos terrenos — e isto se deve não apenas a reduzidíssima área ocupada pelas instalações urbanas e rurais, mas também ao fato das construções serem de um tipo quase que aderente (a taipa é quase uma continuação da terra), não infringindo assim as condições específicas do solo atingido — o mesmo não ocorreu com a estrutura da comunidade, atingida de, alto a baixo, do Antiga fazenda do vale do rio Paraíba. No aclive do segundo morro são visíveis os sulcos deixados pelo antigo cafezal. A pecuária qvie substituiu, de parceria com o cupim e a sauva, o primitivo café, apresenta um índice populacional baixo. Daí o despovoamento desta zona, realizado em benefício das recém abertas na Mogiana e Paulista. barão ao escravo, da fazenda à cidade, pela decadência irremediável. Se o processo de catabolismo demográfico daí resultante não foi mais acentuado e desastroso, isto se deve à presença de condições não colhidas pela economia do café: 1) hidrologia comandada pelas massas de ar (polar atlântica) cujo comportamento, serra-acima, se realiza em função da escarpa mateada da serra de Paranapiacaba; 2) a estrutura do solo foi apenas atingida no estrato superior, edafológico; 3) disposição geográfica obrigatória para as instalações de transporte entre os dois maiores centros urbanos da área que concentra, no país, o mais vivo índice de ocupação humana e de estabelecimentos. Nessa considerável área, de, cerca de 50.000 quilômetros quadrados, cujo capeamento se realiza com os dois tipos citados de solos e, de pequenas variantes, provenientes estas dos chistos quartzíticos e micáceos, se estendeu a cultura do café, numa forma responsável pelo estabelecimento de um tipo de economia, de política, de arranjo demográfico, de montagem social, de técnica agrícola, de arquitetura. Aí o fazendeiro aprendeu a monocultura e a sujeição exclusivista a um tipo de produção primária; aí o fazendeiro virou barão: aí realizou o aprendizado que o tornaria um ser meio urbano, meio rural; aí foi montado um tipo de produção de base escravocrata; aí se firmaram os traços principais da cultura e trato do café; e aí se criou também um "partido", tanto para a arquitetura rural, como para a arquitetura urbana. Mas, em conseqüência do comportamento do solo, precocemen-te desgastado, e do comportamento do fazendeiro, subjugado por uma política financeira dependente de favores oficiais, para o esquema econômico e social vigente, só restava uma alternativa: procurar outro solo virgem onde fossem encontradas, pelo menos, as mesmas virtudes iniciais daquele que era então abandonado. Todo este aprendizado vai influir na restante área do Estado de São Paulo, desbravada pelo pio-neirismo da cultura do café. Na baixa Mogiana, para onde, então se encaminhou, foi encontrar os mesmos tipos de solo, mas não o mesmo tipo de proteção, especialmente no que dizia respeito à hidrologia e ao clima: aquela se revelou mais susceptível; este se denunciou mais inclemente, inserindo na mentalidade do cafesista um novo traço: o pavor da geada e da seca. Daí ter havido nesta última parte do arqueano paulista, uma fase cafesista mais rápida, um abandono mais apressado; e menores os índices de instalações e de riqueza. Saindo desta província pedológica, o café encontrou aquela região já parcialmente ocupada, desde o fim do século dezoito, pela cultura da cana de açúcar ¦— a série Itararé-Tubarão — onde a estratigrafia, aliada à diversidade de matrizes intercaladas nas sucessivas fases de glaciação, e enriquecida ainda de materiais provenientes do Complexo Cristalino e da intrusão triássica, proporcionou também grande variedade de solos; desde os argilosos e ricos, até aqueles arenosos e ácidos que são considerados os piores solos do terri-