em si, o que é o específico e básico valor da expressão arquitefural : a harmonia. O fito da obra em apreço, premiada pela "Aca-demie des Beaux-Artes", consiste em provar que mesmo em matéria de arte, nada se faz sem lógica. A mesma inspiração e a mesma espontaneidade mais descabidas de um artista têm seu fator implícito numa razão rígida pelo elemento estético. Este fator regularizador de uma expressão artística, como dizer: metro e rima na poesia,- tempo e contraponto na música,- contrastes e tonalidades na pintura; relevo e claro-escuro na escultura , nos envolve na existência de uma lei, em conseqüência da qual pode-se admitir ser a estética arquitetônica uma ciênc^íi Perante este asserto, algum arquiteto, que sempre trabalhou seguindo sua inspiração e seus sentimentos artísticos com toda liberdade, sentir-se-á talvez pasmado. O livro em exame, entretanto, nos dá a explicação. Explicação cuja essência vamos tentar aqui expor num mínimo de palavras. E' através da história da arquitetura que conseguimos averiguar a evolução de seus elementos estéticos, tais como i a simetria, a assimetria, o ritmo, o contraste, a proporção, a harmonia, a composição, as cores. Desses fatos deduzimos as leis, e relativas provas demonstrativas, como assim as relativas normas explicativas e executivas, isto é, estabelecemos um processo exato e lógico que, baseando-se sobre elementos reais e não abstratos, ou melhor, sobre fatos, torna-se um processo científico. Por exemplo, consideremos a simetria : tem as suas leis alicerceadas sobre pontos e eixos centrais de referimento. O mesmo diga-se a respeito da assimetria, cujo equilíbrio harmônico depende da aplicação do assim chamado "número áureo" ou da "divina proporção". Seguem a mais : o ritmo, a proporção, etc, todos fatores que enveredam o projeto para um fato conclusivo : a harmonjü* Eis que neste momento final e ideal de uma expressão arquitetônica, qual pode ser um "belo" edifício, constatamos que todas as verdadeiras obras arquitetônicas são constituídas — diz o Autor — de "formas iguais" "loi du même"i, e de "formas semelhantes" f"Ioi du semblable"'. Não pode existir terceira lei, — diz o Prof. Borissavlievitch —, pois se ai formas de uma arquitetura não são "iguais" e nem "semelhantes", são, portanto, discordes e sem relação harmônica. Uma fuga de colunas clássicas, ou de janelas modernas, representando um ritmo regular, definem uma "unidade na uniformidade" !"lei do mesmo"1; enquanto uma catedral romântica ou gótica, completa e firme como é, forma uma "unidade na variedade" í"lei de semelhança" . Não pensem os arquitetos que essas leis sejam dogmáticas e absolutas como os clássicos desenhos do Vignola. Elas não pretendem ensinar a compor ou a formar, ou melhor, a projetar, pois deixam o arquiteto livre com si mesmo, como livre deve ser de criar em plena liberdade de espírito. O que essas "{iSis*, servem, é para controlar e eventualmente corrigir a composição, sendo que através do crivo dessas leis podemos definir de harmônica a expressão de uma arquitetura. Evidentemente, as leis como todas as leis, também as de ordem estética, correspondem ao conjunto e não ao detalhe. Por conseqüência não devem ser de entrave ao talento artístico do arquiteto, ou do aluno-arquiteto, mas sim teóricas e práticas ao mesmo tempo, permitindo-lhes de compor harmôni-camente em correlações de elementos e de valores em prol da sinceridade e da verdade da arquitetura. José V. Vicari. M. BORISSAVLIEVITCH TRAITÉ D'ESTHÉTIQUE SCIENTIFIQUE DE L'ARCHITECTURE Tratado de Estética Científica da Arquitetura Editado pelo mesmo Autor — Paris 1954 2 volumes — 16x25 — 344 páginas — 489 figuras Quando, em número precedente desta Revista, apresentamos o livro "Le Nombre d'Or" do Prof. Miloutine Borissavlievitch da Universidade de Paris, já citávamos, do mesmo Autor, o "Traité d'Esthétique Scientifique de l'Architecture" que aqui vamos por sua vez recensear. As duas obras, como em geral todas as obras do Prof. Borissavlievitch, são correlatas entre elas, pois, no "Le Nombre d'Or", pelo seu caráter explicativo com relação ao problema das porporções arquitetônicas, já víamos que a procedência do assunto era a mesma do tratado que estamos examinando, isto é, a estética considerada e aplicada na Arquitetura. Sob este ponto de vista, o citado "Traité d'Esthétique Scientifique de 1'Architecture" é dos mais valiosos que apareceram até hoje no setor das pesquisas científicas e psicológicas da Arquitetura. Um setor que, embora apreciado somente por exíguo número de críticos de arte, e não encontrando suficientes acólitos nos meios artísticos modernos, — sendo que para uns arquitetura é só plástica, e, para outros só construção, — é dos que mais podem interessar arquitetos, professores e estudantes de arquitetura, vendo-se perfeitamente sua razão de ser no que mais o Autor insiste em analisar e fazer compreender, desentranhando, explicando, através de todo o emaranhado de ar-guições e deduções que o complexo assunto comporta