QUE AUDÁCIA! Têm surgido em jornais desta cidade uma nota publicitária dispendiosamente preparada pela firma Monções tentando justificar uma das tantas aberrações arquitetônicas pelas quais é responsável. Trata-se de um edifício de nome pomposo já construído no bairro de Higienópolis e que já é suficientemente desconhecido pelos arquitetos, pelos estudantes de arquitetura e por todos os que entendem alguma coisa dessa arte entre nós. O que consideramos, de fato, audacioso por parte dos promotores da publicidade referida é a apresentação de declarações de um arquiteto americano, chamado John R. Fugard que, em visita a essa obra, fez uma série de afirmações que têm chamado a atenção dos arquitetos paulistas pela coragem que teve o americano de deitar opinião da forma absurda como o fez. Disse êle, por exemplo, confessando-se vivamente impressionado : "Conhecemos a arquitetura de Atenas, de Roma, de Copenhague, de Paris e de várias cidades norte-americanas. Foi necessário vir a São Paulo, contudo, para encontrar o mais fabuloso exemplo da arquitetura moderna. Em nossas peregrina-çCes pelo mundo, jamais vimos coisa melhor — do que a realizada pelos arquitetos brasileiros. Cumpre, ainda, observar, que dentro do Brasil, São Paulo pontifica e, dentro de São Paulo, o Edifício Bretagne cons-titue, em minha opinião, a última palavra no tocante à arquitetura moderna. Este prédio está destinado a se tornar famoso no mundo inteiro. Desejo felicitar os arquitetos brasileiros por essa notável realização, que se reveste de características pioneiras na avançada arquitetura moderna". Ora, meus amigos, jamais ouvimos afirmações tão sem fundamento, tão graciosas e tão infelizes. Ou esse arquiteto percorreu o mundo e não viu nada ou, sntão, é autor nos Estados Unidos de aberrações iguais a essa levando, porém, a vantagem e a diferença de ser êle arquiteto e diplomado, o que não acontece com os seus protegidos. Além do mais, rasga um elogio aos arquitetos brasileiros, provavelmente desconhecendo nossas grandes obras. Pois os estudantes das Faculdades de Arquitetura já sabem desde o 1.° ano que este exemplo é exatamente aquele que não deve ser imitado, porque é o avesso da arquitetura contemporânea, é o joio de nosso trigo. Contém tudo o que pode constituir aberração : na forma, na côr, no tratamento, no equilíbrio, na proporção. Errado de cima a baixo. E' ridículo, várias vezes, toparmos com elogio dessa natureza pois seria o último dos exemplos de arquitetura a ser mencionado em qualquer parte do mundo. Não atinamos com a arti- manha usada para levar esse americano a dizer tal coisa e transportar a comitiva que se compunha de vários outros arquitetos até esse local. Este edifício constitue-se num dos piores exemplos de arquitetura, e elogiá-lo dessa forma é ignorar maldosamente, com toda a certeza, o edifício Esther, dos arquitetos Álvaro Vital Brazil e Ademar Marinho, o Hospital do Câncer do arquiteto Rino Levi, o edifício Três Marias do arquiteto Abelardo de Souza, o edifício Mara do arquiteto Eduardo Kneese de Mello, o edifício do Cinema Ipiranga também, do arquiteto Rino Levi, o edifício Eiffel do arquiteto Oscar Niemeyer, os vários edifícios do arquiteto Franz Heep que já se integrou em nosso meio produzindo ótima arquitetura, as obras do Parque Ibirapuera, dignas de admiração, dos arquitetos Oscar Niemeyer, Hélio Uchôa, Zenon Lotufo e Eduardo Kneese de Mello e uma enorme série de obras notáveis que corporificam nossa criação artística. Mr. John R. Fugard, quem lhe contou tamanha anedota ? O senhor foi tapeado deslavadamente. Aplicaram no senhor "o conto do pilotis", e o senhor, que parece tão culto, tão viajado, caiu como pato ! Que pena ! Porque o senhor não fez como tanta gente que têm subido no topo de tal monte. . . mas de tijolos e se maravilhado com o panorama, ignorando, no entanto, o que está dos pés para baixo ? A arquitetura contemporânea brasileira que já adquiriu consciência, não permite mais o deboche, nem pode ser confundida como se fosse a . . . respeitosa. Arquiteto Eduardo Corona A POSIÇÃO SOCIAL DOS ARQUITETOS Flano. é. muito diferente que o automatismo vital deixe fluir a história do homem a que o homem forje a história Tese do arquiteto Carlos Lazo apresentado por oca- da su° vida. Por isso dizemos que um homem ou um siÕO do III ConaresSO da U I A povo fazem história — que é a única maneira de fazer política — quando a sua consciência de ubicação no plano Os arquitetos do mundo coincidem já em torno de um corpo de lhe Permite anteciper a projeção de estapas sequentes, e doutrina cujas projeções filosófico-sociais ultrapassam a tradicional quando o homem não planeja foge, à sua missão voltando atitude que normava o exercício da profissão. as costas ao seu destino. 1 — O Conceito do planejamento humano deduz-se da própria 2 — E' mais fácil conhecer aos homens em geral que a um crquitetura do Universo. A vigência do Plano, no qual homem em particular. A humanidade não é mais que uma o determinismo e a liberdade são conjugáveis, projeta o e o homem reage de maneira análoga sobre todo o pla- destino do homem desde a cúspide de ura novo humanis- neta. A história universal não é a aglomeração de episó- mo de dimensões cósmicas. O que caracteriza o homem dios inconexos, mas a integração de histórias locais; po- é a faculdade do desígnio com que pode atuar dentro do demos delinear o repertório das necessidades, aspirações