PALÁCIO LEGISLATIVO: MONUMENTO DO POVO Arq. E. Graeff A propósito da controvérsia surgida por ocasião da abertura do Vejam. Lá Vai êle, pela Corrente do Nilo, Com SUO concurso para o Palácio Legislativo do Rio Grande do Sul, na tabela, seu metro e Seu ábaCO. Conta as pedras, me- cidade de Porto Alere, o arquiteto Edgar Graeff publicou na im- de a base, Verifica O Volume : cinCO hectares Cobertos prensa dessa cidade o artigo que abaixo transcrevemos e que, pela base, 230 metros de lado, 146 metros de altura, pelo sentido de suas palavras, muita coisa nos lembra sobre a 2.500.000 metros CÚblCOS de pedra — O SUOr de importância de determinados projetos que devem ser resolvidos 10.000 felás durante dez anos. . . exclusivamente por arquitetos. Como tudo lhe parece estúpido, só para esconder um defunto embalsamado ! Sim, é realmente estúpido isso das pedras e do de- Não é a lei que causa esta confusão — é o esqueci- funto. Tão estúpido como isso do metro e do ábaco. mento. Depois de iniciada a comédia, os homens es- Porque ali não se trata das pedras — trata-se da queceram a essência da monumentalidade. Pirâmide : do túmulo de um deus. E não importa que Há quem acredite que tudo não passou de um equí- ° Faraó fosse um deus de mentira. Pois grande e di- voco formal : formas dissociadas da vida teriam cor- vino era ° f'mo c'e Amon das grandes esperanças do rompido o sentido dos monumentos. seu povo. E a Pirâmide não é pedra para ser medida Não creio nisso. Pois cada essência acaba gerando e Pesada: é um brado de resistência 9ue f Planta al" as formas que lhe convém. E aí está o mundo, repleto tiv0 fntre ° verde do vale e a are'a d,° ,deSert°' entre Hf rinunQ (nrmnc ^r^rírr, w~,;~ ,4 r a vida e a morte. E nesse grito terrível de suor e sanar novas formas, porem vazio de novos monumentos. a . . . «m/cn KU f,mA^ frs-, ~ <,;à~ „,,~____i i Que vai uma esperança e uma decisão : VlvtK. ino tunao, toi a vida que perdeu a noção da qran- M . i , i Hpvn f ^ Wmnlicmn „*„ ~~-,.„ à « - A voraqem de quarenta séculos tudo arrastou : o aeza. c o tormalismo nao passa de conseqüência. a , » ^ . . ? Farão e seus generais, Amon e Osins, os escravos e rorque o monumento — como a epopéia — não nasce ¦ * i i ; __ m-i X. , . p, Y ,^^,, nuu iiuict; os conquistadores. La, porem, permanecem o Nilo ao arbítrio do artista, te brota de mi hões de olhares • i i< u- j- >= uiuu uc iNiinut» uc uinureb „ as are|as e esse giqante — o feias — cultivando seu que se concentram. Germina da admiração do cari- ,. • j j i „u ,j„ ¦ , , ,, „ > ' u cu" tnqo e apascentando seu gado a sombra da sua es- nno e ao respeito de um povo. E este iuizo" emociona i i i i _i _i _i . , K | . ,,,. ' u perança de granito, do seu brado de pedra, da sua traduz o reconhecimento pub ico da autenticidade do i ¦ ~ i¦ * -j j a -i - *-„ u a~ ¦ , , K uuiciiiiuuuue uu decisão de eternidade. Aquilo nao e um túmulo de poder e da qrandeza. , , , i • i pedra — e uma tonte de vida. Na comédia, nesta farsa sem grandeza, não é a forma que falha — é o conteúdo. Nela não há nem * * * admiração, nem carinho e nem respeito. Só desprezo. E algum riso, quem sabe. O essencial não é a máquina de fazer leis. O prin- Antes era o sangue. Vermelho ou azul, mas sanque. ciPa' não é a pedra com seu peso e sua resistência — E o sanque iorra do coração, ferve nas veias e alimen- é a mensaqem que se vai utilizar da pedra, a idéia ta heróis. Heróis e deuses. que se vai fazer palavra de granito. Foi por caminhos de sangue que Achiles encontrou E' bom, necessário e indispensável que a máquina Homero. Foi o sangue que amalgamou as pedras das de fazer leis funcione com plena eficiência; que os pi- Catedrais. lares e as vigas, os pisos e os tetos resultem sólidos e Mas, depois, veio o dinheiro, frio, que comicha nas resistentes; que o ar e a luz, o som e o conforto cor- mãos e as transforma em garras. respondam às exigências biológicas e à atividade prá- Se o herói é o dileto do sangue, o usurário é o pri- tica dos homens. Mas tudo não passa da condição moaênito do dinheiro. primária de existência do edifício. Até aí, êle terá a E de uma conta-corrente nasceu o poder sem gran- mesma qualidade essencial do silo que preserva o tri- deza. Começou a farsa. go, da represa que acumula a áqua. Perdeu-se a noção da qualidade. A quantidade me- Nada disto, porém, faz o Palácio. Não são as diu o valor das cousas, dos fatos e dos homens. pedras e a máquina que geram o monumento. A se- E não mais foi possível compor monumentos. Porque mente do monumento é a idéia, a essência que der- monumento é qualidade reconhecida, qrandeza interior. rama sobre as cousas, que diqnifica a pedra e a má- Esqueceu-se o próprio siqnificqdo do termo. E quan- quinq. E' algo capaz de tocar o coração dos homens do se pede um Palácio, nasce a confusão. Para saber e elevá-los na sua própria dignidade, quem pode e quem não deve projetar o Palácio, recorre-se à lei, que é uma espécie de balancete geral das atribuições profissionais. E lá permanece a con- t.,~ ur„_i i • * • u i Sei que a estas horas, centenas de arquitetos, no tusao sob a forma de palavras misteriosas: obras de . , ' , , _~ i." '4. _ •„!„ i. t.- i- „ „ i i Brasi inteiro, sondam as pa avras do Proqrama ten- carater essencialmente artístico e monumental. ' . , a tando captar a idéia que ha de germinar o monumento. * * * E eu lhes previno aue não a encontrarão nas palavras do Programa. A fonte é a alma deste povo : O Densamento usurário — em cuio estandarte lê-se deste povo jovem que se aqitq inquieto na ânsia o dístico "tempo é ouro" — não Dercebe valores além de crescer, de se afirmar, de dar a sua luz; da auantidade. Para êle, no Palácio, o essencial há deste povo que regou com sangue as searas do de ser a máauina de fazer leis. Boas leis, natural- seu presente; mente, mas baratas. A maior produção no menor pe- deste povo que com suor lança à terra as sementes ríodo de temoo como convém a uma fábrica moderna. do seu futuro,- O Densamento usurário aostaria de escriturar as es- deste povo que não quer o muro branco das tumbas; trêlns do céu — e jamais compreenderá uma Pirâmide deste povo que exiae uma Catedral para os seus do Egito. grandes sonhos de vida e liberdade.