INSTITUTO BRASILEIRO DE ACÚSTICA OUTUBRO - 1958 - N.° 6 REDAÇÃO Dr. Bernardo Bedrikow — Eng.° Roberto Paulo Richter — Bel. João Lellis Cardoso — Orlando Manoel Brogiolo. CONTRIBUIÇÃO DAS NORMAS TÉCNICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DA ACÚSTICA Nos compêndios de Física clássicos, a Acústica era a parte mais fácil : pequenina, compreensível, com pouca matemática, era um dos capítulos que mais gravava na memória do estudante. A parte experimental era também pequena : experiências da velocidade do som, chamas que se extinguiam na demonstração dos "nós" e "ventres", os ressoadores de Helmholtz. . . No campo de aplicações, na arquitetura, por exemplo, a acústica era tratada empiricamen-te. Construiam-se teatros com "péssima acústica" e também, com "ótima acústica", mais ou menos por acaso. Não se falava em "alta fidelidade", em absorção dos ruídos, em interferência radiofônica, em doenças profissionais ocasionadas pelo barulho das máquinas. O "decibel" que os apaixonados da acústica querem entender como unidade de medida de todos os fenômenos físicos e até sociais, (ex. : a dívida externa do Brasil expressa em decibel. . .) estava ainda em gestação. A pequena industrialização existente em nossa terra não levantava problema de ruídos industriais que inquietam o bairro. O tráfego era pouco; os autos mal businavam. A batida numa bi-gorna era música e não barulho. Hoje tudo está mudado. As concentrações urbanas centuplicaram os ruídos; a higiene industrial defronta-se com a surdez dos operários expostos a grandes intensidades sonoras. A visinhança das fábricas, procura inutilmente descansar os nervos depois de um dia agitado de vida urbana. Os altos arranha-céus, refletem impiedosamente o som que anteriormente se perdia no emaranhado das águas dos telhados. Não adianta fugir, para o 15.° andar: o som refletido vai até lá... O aparelho auditivo passou assim a ser solicitado tremendamente na vida moderna. O rádio e a TV passaram a ser instrumentos de torturas quando manejados por pessoas que não possuem seu "acustímetro" natural bem calibrado. A eletrônica arrebanha os sons do mundo inteiro. O rádio está muito Eng.° Eudoro L. Berlinck Delegado em São Paulo da A. B. N. T. Associação Brasileira de Normas Técnicas alto ? São 2 da madrugada ? Que é? Um programa de Pequim... ou de Israel. . . Está justificado. Os vi-sinhos que se danem. Em conseqüência criaram-se novas técnicas, encetaram-se novos estudos, inventaram-se novos aparelhos de medidas. E o som sem ter comprimentos de onda que possam se emaranhar com os raios cósmicos, passou à ordem do dia tanto quanto a desintegração do átomo. Algo precisa ser feito nesse pandemônio ruidoso que é a vida de uma cidade de 3 milhões de habitantes. E' preciso pôr um limite aos ruídos urbanos, aos ruídos industriais, aos ruídos dos escritórios, em defesa do trabalhador, em nossa defesa. Começa então a tomar forma a questão da medição do ruído, pois limitação implica em medida. Os métodos de medição não podem ficar ao critério de cada operador, devem ser normalizados; os aparelhos de medição devem apresentar características pré determinadas e comuns de forma a garantir identidade de resultados. Mas quem vai determinar essas normas ? Os técnicos de laboratórios, os industriais, os órgãos fiscalizadores, os fabricantes de materiais acústicos, os fabricantes de rádio, os físicos, os técnicos em higiene industrial, os institutos especializados em Eletrônica e em Acústica, os arquitetos reunidos sob a égide das Associações Nacionais de Normas, depois de muito estudo, muita consulta biblioqráfica, de muita experimentação decidem quais devem ser as normas para a determinação da intensidade sonora. Além dos métodos de medição, há o problema transcendente da determinação dos níveis de ruídos aceitáveis, nos diversos locais: escolas, teatros, hospitais, bibliotecas, etc. Nas determinações por meio de aparelhagem, apenas as leis físicas entram em iôqo : tudo se faz por teoria matemática. Mas quando se trata do conforto auditivo o problema se torna complicado pois implica em joqar com elementos psico-físicos de difícil avaliação. A importância que assume hoje a Acústica evidencia-se pelo número de Comissões que funcionam nos órgãos de normalização de todos os países industrializados. O meio técnico e industrial brasileiro não poderia estar à margem desse movimento tão generalizado. Assim é que, desde 1956, na Associação Brasileira de Normas Técnicas, reune-se uma Comissão de Acústica, com as finalidades gerais acima descrita. Logo após, fundou-se o Instituto Brasileiro de Acústica, que veio trazer valioso impulso aos trabalhos de normalização e dos estudos acústicos. Dois organismos tecnológicos, o Instituto de Eletrotécnica de S. Paulo e o Instituto Tecnológico de São José dos Campos, aderiram aos trabalhos, por intermédio de competentíssimos representantes. O programa de trabalho da Comissão de Acústica da ABNT é o delineado acima : fixação de uma terminologia brasileira de Acústica : métodos de medição de ruídos industriais e fixação de níveis de ruídos máximos admissíveis. Ao mesmo tempo a ABNT organizou uma pequena biblioteca de obras especializadas para a consulta de seus membros, além das Normas de Acústica que recebe de todas as Associações congêneres estrangeiras. Não somente em São Paulo se processa esse movimento. No Rio, onde a ABNT tem a sua sede, o Eng.° Paulo Sá, autor de trabalhos teóricos e experimentais sobre Acústica e da carta acústica do Distrito Federal, reuniu também uma Comissão de técnicos e estudiosos do assunto. Mas o grande impulso que está recebendo a Acústica, no que tange o campo da normalização dos métodos de estudo do som e dos ruídos vem da Comissão Internacional organizada pela ISO (International Standards Organization), a ISO/TC 43. Essa Comissão trabalha desde 1952 sendo a Associação inglesa, British Standards Institution, o secretariado e coordenadora dos trabalhos. Já realizou 4 reuniões plená- 525