IQBll SÃO PAULO RENINA EXPÕE PINTURA A recente exposição de Renina Katz parece tão diferente da precedente que uma análise comparativa se torna inevitável. Uma gravadora de experiência passa a dedicar-se ao desenho e à pintura. Uma pergunta se impõe : até que ponto a mudança de uma técnica expressiva, modifica os frutos da vontade expressiva ? Parece-nos que do ponto de vista do artesanato, do "métier", não houve mudança brusca ou "tabula rasa"; ao contrário, reconhecendo uma seqüência lógica, um desenvolvimento. O mesmo carinho das texturas gravadas dando valores aos diversos planos dos morros, encontramo-lo agora na papel mil vezes riscado, no vermelho trabalhado densamente com a trama do desenho negro. A mesma disciplina de trabalho e organização de espaço; a mesma procura de texturas e formas gráficas de diferenciar pla- Boletim Mensal do Instituto de Arquitetos do Brasil Deptm. de São Paulo — N.° 60 — Fevereiro de 1959 Redatores: Arq. Alfredo Paesani — Arq. Carlos A. C. Lemos Arq. Eduardo Corona — Arq. Rodolpho Ortenblad Filho nos. No entanto, quantos caminhos são sugeridos pela côr, quão mais livre é a composição e utilização dessas hábeis texturas ! Esta maior liberdade não nos parece de ordem ar-tesanal e sim conceituai : uma nova órbita de pesquisa. A maior modificação, a nosso ver, se dá no abandono ou modificação da figura humana; anteriormente a figura estava presa à temática, restrita ao anedótico, concentrando em seu desenho bem traçado toda a força da gravura. Agora encontramos a figura em estáticos e decorativos retratos que nos fazem pensar em Pisanello. Nestas figuras há um certo regozijo no livre fluir do desenho e na cobertura decorada de planejamentos. As figuras atuais parecem mais estudos, mas são feitas com muito amor. Este mesmo amor e prazer quase narcisista, fechado sobre si próprio, com que são desenhadas e compostas as belíssimas flores, são talvez plàsticamente o ponto mais alto da exposição. Mas o que mais caracteriza o conjunto de obras expostas não são figuras nem flores. E' precisamente a substituição dessa figura pelos panoramas urbanos, marinhos, pelo telúrio enfim. Renina reinventa a terra e as cidades e em sombrias cores terrosas procura nelas aquele sopro de vida que com maior facilidade e certo simplismo se revelava nas figuras das gravuras de outrora. Difícil este caminho porque cheio de tentações: a tentação geométrica, a cromática, a da simplificação, a do vazio. (Sem falar de que a pintura tem também uma dialética sua, inerente; assim a própria pesquisa cromática e de texturas tem um encanto que predispõe e decide da composição). Em lugar de morros (que ainda aparecem), as composições lineares criam cidades e cais de grande ambientação brasileira; lembramo-nos invariavelmente de Paranaguá quando vemos aquele belíssimo cais alaranjado com seu perfil de casas simples, quase infantil. Neste novo caminho de Renina encontramos conseqüência e lógica. Porisso não nos surpreende. Sua nova perspectiva é certamente mais rica. Seus resultados, ora expostos, são muito bons e, nalguns casos, excelentes. Quanto ao conteúdo, convém lembrar que, a vida, o amor ao que cresce e se recria, encontra-se não apenas no homem, mas também nas coisas que êle faz. E que o humano não está apenas no tema representado e sim nos olhos de quem representa, de quem cria. A nova visão, o olhar novo, trouxe aprofundamento e amplitude revelando ainda grande bom gosto cro-mático. Jorge Wílheim